Jair Raso

Atuação

• Coordenador do Serviço de Neurocirurgia e Neurologia do Hospital Unimed BH • Neurocirurgião do Biocor Instituto, Belo Horizonte, MG Membro Titular da Academia Mineira de Medicina • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia • Membro do Congresso of Neurological Surgeons • Mestrado e Doutorado em Cirurgia pela UFMG

Especialidades

• Malformação • Artério Venosa • Aneurisma Cerebral • Cirurgia de Bypass • Revascularização Cerebral • Cirurgia de Carótida • Tumores Cerebrais • Descompressão Neurovascular • Doença de Moya-Moya Tumores da Base do Crânio Doppler Transcraniano

Contato

Alameda da Serra 400 / 404 - Nova Lima - MG (31)3264-9590 • (31) 3264-9387 jrasomd@yahoo.com.br

Olim...piada: esporte é saúde!

As Olimpíadas do Rio foram um espetáculo. O mundo todo pôde ver atletas de diversos países disputando as tão sonhadas medalhas olímpicas. Entretanto, esse espetáculo grandioso tem uma faceta pouco comentada: para se alcançar sucesso nesse tipo de competição, os atletas buscam o limite do corpo humano, a superação física e metas ambiciosas que fascinam o público.  Para além do glamour e das cifras bilionárias que acompanham os louros das vitórias,  há um preço solitário a ser pago pelo atleta: lesões agudas ou tardias em seu corpo provocadas por excesso de treinos e competições. 
Nas Olimpíadas do Rio, um halterofilista armênio, Andranik Karapetyan, quebrou o braço ao tentar erguer 195 kg.Na ginástica artística, o francês Samir Ait Said caiu de mau jeito durante a execução de seu salto e fraturou a perna; a ginasta brasileira, Jade Barbosa, não teve melhor sorte: caiu de joelhos e depois teve uma lesão no tornozelo, deixando o estádio olímpico em cadeira de rodas; a ciclista holandesa Annemiek van Vleuten liderava a prova de rua quando caiu, bateu a cabeça no meio fio e sofreu traumatismo craniano. Ao invés de ir para o pódio, acabou no CTI onde foi constatada contusão cerebral e fratura de vértebras lombares. Também em prova de rua, o ciclista colombiano Sergio Luis Henao fraturou a bacia, e  Vicenzo Nibali quebrou a clavícula; no futebol, na partida entre México e Fiji. O capitão do time mexicano Oribe Peralta fraturou o nariz, e o meio de campo Rodolfo Pizarro, a fíbula direita.  
O tornozelo foi o ponto fraco de outros competidores: após torção, o tenista alemão Dustin Brown desistiu da partida contra o brasileiro Thomaz Bellucci. Pelo mesmo motivo, o jogador de vôlei do Egito, Ahmed El Kotb, deixou a competição contra a Polônia na quadra do Maracanãzinho
No judô, na luta pela repescagem da categoria ligeiro contra a atleta da Mongólia, Urantsetseg Munkhbat, a judoca brasileira Sarah Menezes sofreu luxação no cotovelo direito e, após a derrota, saiu da arena com o braço imobilizado.
Marta Baeza, da esgrima, abandonou a disputa individual de sabre contra a polonesa Bogna Jozwiak, após torcer o joelho esquerdo.
No esporte, o tempo de recuperação do atleta lesado nem sempre é obedecido, por razões muitas vezes obscuras.
Lesões traumáticas acidentais realmente fazem parte do jogo, e a organização desses eventos leva em consideração a segurança de determinados esportes. O ciclismo de rua, por exemplo, pode ser revisto dentro dessa perspectiva. Não será a primeira vez. Nas Olimpíadas de Atenas de 1896, os organizadores instituíram uma nova competição ciclística na qual os atletas deveriam pedalar doze horas a fio. Sete atletas participaram, e só dois chegaram ao final da competição. Não foi difícil decidir pela retirada dessa modalidade como competição olímpica.
Nada,entretanto, justifica a brutalidade de determinadas modalidades ainda consideradas esportes. O Pancrácio, por exemplo, era um tipo de modalidade esportiva que fez parte dos jogos olímpicos entre os anos de 648 a. C. e 383 d. C.. Era uma forma mais violenta do que as lutas de MMA de hoje. Misturava técnicas do boxe, da luta grega e do vale-tudo ou quase tudo e só terminava quando um dos oponentes estava à beira da morte.
Hoje, até autoridades como Dr. Ricardo Munir Nahas, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte reconhece que lesões traumáticas no boxe são corriqueiras, fazem parte do próprio esporte. Nas palavras deles, “quebrar o nariz lutando boxe não é nada absurdo”.
Esse tipo de conceito deve ser revisto. Há muito mais dano relacionado ao boxe do que fraturas dos ossos da face. As lesões cerebrais causadas por traumatismos repetidos na cabeça são irreversíveis e estão relacionados ao desenvolvimento tardio de um tipo de demência em tudo semelhante ao Alzheimer. Esporte como esse não deve ser considerado Olímpico. É Pancrácio disfarçado.

O espetáculo das Olimpíadas deve ser sempre louvado como uma ode ao esporte como meio eficaz de confraternização entre os povos.  Entretanto, é preciso levar mais a sério os limites naturais do corpo humano e a segurança dos atletas nas competições. Caso contrário, o mote “esporte é saúde” não passará de piada olímpica. 



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Velhice e Solidão



“Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora”
Caetano Veloso, Desde que o samba é samba

Às vésperas da estreia de minha peça, “DDD: deleite, depois delete”, resolvi fazer uma pesquisa sobre a velhice com meus contatos no facebook . Afinal, essa comédia gira sobre três senhoras às voltas com a internet. Pensei ser mais do que adequado usar a internet para esse diálogo.
Lancei a seguinte pergunta: qual a doença mais grave da velhice?
Para minha surpresa, a resposta mais frequente não foi uma doença, foi a solidão. Vinte e dois por cento das respostas apontava a solidão como a “doença” mais grave da velhice. Se acrescentarmos abandono, invisibilidade e outras palavras que expressam o mesmo sentimento, o número de respostas é ainda maior. 
Confesso que esperava que as pessoas fossem se referir ao Alzheimer, ao derrame ou Parkinson, doenças comuns no envelhecimento. Foram poucas essas respostas.
Solidão não é uma doença. Segundo o Houaiss, solidão é um estado, uma sensação de quem se acha ou se sente desacompanhado, só, isolado do mundo.
O poeta Caetano, em sua canção “Desde que o samba é samba”, nos lembra que a solidão apavora, “tudo demorando em ser tão ruim”.
Talvez seja essa a razão dessa resposta prevalente. Não sei da idade da maioria das pessoas que respondeu à minha pesquisa. Certamente, não são todos idosos e falam da velhice como uma reflexão, baseados em suas experiências familiares ou em suas expectativas. Talvez seja este o recado. A velhice, tal como a solidão, apavora.
Montaigne (1533-1592), em seus Ensaios, trata a solidão como uma meta para a velhice. Nos diz: “É preciso ter como reserva um recanto pessoal, independente, em que sejamos livres em toda acepção da palavra, que seja nosso principal retiro e onde estejamos absolutamente sozinhos. Aí nos entreteremos de nós com nós mesmos, e a essa conversa, que não versará nenhum outro assunto, ninguém será admitido”.  
Ouvi num filme italiano que a doença mais grave da velhice é a aposentadoria.
Penso ser a inatividade, física ou mental.
Seja como for, a maioria de nós quer mesmo é seguir em frente, e a estação derradeira é justamente a velhice.

Talvez seja agora o tempo de nos prepararmos para chegarmos a essa estação. Sozinhos. 





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Julgamento da história


Com a aprovação do processo de impeachment da presidente Dilma pelo Congresso, inicia-se o julgamento. Afastada de suas funções, Dilma será julgada pelos senadores da república em sessões presididas pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal. Se condenada, perderá definitivamente seu cargo e não poderá exercer nenhuma atividade na vida pública por oito anos.
Sem nunca ter sido eleita para nenhum cargo público, Dilma Roussef foi candidata à presidência da república pelo Partido dos Trabalhadores em 2010. Conseguiu se reeleger em 2014, em parte por lidar com o orçamento da nação por meio de graves artifícios fiscais, peças-chave da acusação do impeachment, processo iniciado no ano seguinte de sua reeleição.
Um outro julgamento, entretanto, já estava em curso. Dilma chegou ao maior posto político da nação com o discurso de ser uma gerente de primeira qualidade, mãe do programa de aceleração do crescimento, capaz de alavancar ainda mais o programa social de seu partido. À frente do governo, seguiu em direção oposta.
Seu julgamento histórico é inevitável. Dilma mostrou-se incapaz de reunir as forças políticas em torno de seu frágil programa de governo e mergulhou o país em grave recessão. Impossível será desvincular seu nome, suas ações e omissões dos escândalos de corrupção tanto em seu governo como em empresas estatais. No futuro, deverá ser lembrada como artífice de uma das piores crises do Brasil.
O distanciamento é necessário para o correto julgamento pela história, que mostrará para as gerações futuras os erros não só dos governantes do presente, mas, sobretudo, de seus eleitores.
De cada crise como essa o Brasil sai fortalecido. É cada vez mais comum ouvirmos a política como assunto nas mais diversas rodas de conversas. O direito é convocado para balizar opiniões a favor ou contra  este ou aquele argumento. A economia do país passa a ser olhada com mais atenção, pois se aprende no bolso da economia caseira a vinculação de uma coisa e outra.
Comparo o que vivemos hoje no Brasil à queda do muro de Berlim, símbolo de uma ideologia.  O que está sendo posto por terra é o divórcio entre o discurso e a prática política. Para se ter um exemplo disso, basta ler as diretrizes do partido dos trabalhadores para seu governo e compará-las ao que foi feito.  Os alicerces dos projetos de governo não suportam a obsessão pelo poder, fundado em ideologia nem sempre manifesta em linguagem clara.
O povo mobilizado vai às ruas expressar sua opinião, em cores diversas, em gritos diversos, legítimas manifestações de civilidade. É a voz da diversidade, livre para ser ouvida de um lado ou de outro, sem necessidade de muros.
Penso que vivemos um tempo especial. A história, antes matéria de estudo em colégio, passa a ser vivida no cotidiano. No centro dessa história, a reforma política já está em curso e será percebida antes nas urnas do que pelos partidos.
Em seu discurso de posse, o vice-presidente em exercício, Michel Temer, propõe uma mudança de rumo na política, na economia, no próprio governo.  Foi um discurso de esperança, feito em bom português. Estávamos sentindo falta dessas duas coisas.
Segundo o mito, a esperança ficou guardada na jarra de Pandora, depois que todos os males de lá saíram. E ouvir o discurso de um presidente com o devido respeito à própria língua não deixa de ser um bom começo.



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Pajé Dilma e a pílula da falsa esperança


A presidente Dilma sancionou lei que libera a produção e comercialização  da fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”, em todo território brasileiro.
Fez isso contra as orientações da Agência de Vigilância Sanitária, Anvisa, que fez seu papel de informar adequadamente que a eficácia da pílula ainda não está comprovada e não se sabe quanto à segurança de seu uso em seres humanos.  Alertou também sobre os riscos à saúde da população com o grave  precedente de se  colocar no mercado, por força de uma lei, uma substância fora da possibilidade de controle.
Da mesma forma, as entidades médicas  advertiram as autoridades do governo sobre a necessidade de pesquisas que testem a dose e eficácia, bem como os efeitos colaterais da medicação, antes que ela seja comercializada.  É assim que se procede com todos os medicamentos.
Para os pacientes com câncer, entretanto, a nova lei tem o sabor de esperança no combate ao câncer, pois autoriza as pessoas a utilizar a fosfoetanolamina por livre escolha, desde que apresentem relatório médico comprovando o diagnóstico e assinem termo de consentimento.
Apesar de não prever a distribuição da medicação pelo Ministério da Saúde,  não é difícil antecipar que a lei que autoriza sua produção, e a comercialização  será utilizada pelos pacientes como argumento para se obter, na justiça, o fornecimento gratuito da droga.
Mais uma vez uma  caneta em Brasília é capaz de escrever um retrocesso, desta vez na história da Medicina no Brasil. Afinal, a atuação da Anvisa, espelhada em órgãos controladores americanos e europeus, tem por objetivo oferecer aos brasileiros um selo de garantia que leva em consideração a segurança e eficácia de medicações disponibilizadas no comércio. Criada em 1999, a agência tem independência administrativa, estabilidade de seus dirigentes e autonomia financeira justamente para cumprir sua missão em todos os setores relacionados a produtos e serviços que possam afetar a saúde da população.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por seu turno, financia pesquisas para avaliar a eficácia e segurança da fosfoetanolamina. Segundo renomados pesquisadores, até o momento, os estudos realizados com dois tipos de células tumorais não mostraram nenhum benefício, mesmo em doses superiores àquelas possíveis de ser usadas clinicamente. Estudos pré-clínicos estão sendo realizados pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará e pelo Centro de Inovação de Ensaios Pré-clínicos. 
A esperança deveria ser depositada  não sobre a droga em si, mas nessas pesquisas que poderão esclarecer os eventuais efeitos benéficos ou maléficos da fosfoetanolamina.
Em crônica anterior (Pajelança no STF) eu já havia criticado o ministro do Supremo, Edson Fachin, que assinou liminar liberando a fosfoetanolamina. Agora, a presidente Dilma transforma em lei a pajelança.
É preocupante quando autoridades vestem auréola de bom-mocismo e anunciam falsa esperança para doentes e familiares já fragilizados por grave doença.

Deveriam, sim, mirar seus esforços na destinação de mais recursos para pesquisas científicas. Só assim, a análise dos reais efeitos desta ou de qualquer outra medicação será  avaliada sem envolver paixão pela vontade de curar ou qualquer outra motivação menos nobre.



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Para além das manifestações nas ruas




                                                                       Não concordo com o que você diz.
                                                                       Mas defendo até a morte seu direito
                                                                       de dizê-lo.
                                                                                                          Voltaire

Política no Brasil tem um quê da paixão pelo futebol. Defende-se este ou aquele partido, este ou aquele político, como se estivéssemos torcendo por nosso time no campo de futebol. Insulta-se o adversário, não se lhe reconhece as virtudes. Não se percebem os erros do nosso time, enaltecendo apenas as jogadas de placa. Raro é o silêncio. O espetáculo se dá ao som de cantos e gritos de ordem e muitos, muitos palavrões. Sobra sempre para o juiz e, não raro, para algum comentarista esportivo que não viu o jogo a que você assistiu. Quando o resultado é desfavorável, questiona-se a legalidade desta ou daquela jogada ou mesmo as regras do campeonato.
Não haveria espetáculo de futebol sem a paixão das torcidas. Ou então ele seria uma coisa chocha, tediosa e previsível. Aliás, o imprevisível é o grande encanto do futebol. Talvez seja esse o ponto de contato com a política. Qualquer um de nós, numa democracia livre, podemos entrar neste jogo. O resultado das urnas também é imprevisível.
Entretanto, quando levamos para a política esse mesmo comportamento, algo se perde no meio do caminho. Afinal, o objetivo da política e dos políticos não é, ou não deveria ser, jogar para a plateia, mas pela plateia. Elegemos nossos representantes para que eles façam as jogadas que gostaríamos de fazer, os gols que gostaríamos de marcar.
Se, no futebol, nosso time perde um jogo ou o campeonato, no dia seguinte nossa vida não será mais miserável. Nossa tristeza se dissipará aos poucos, pois outros valores mais fortes nos convocam.
Mas, na política, erros e acertos influenciam nosso trabalho, nossa qualidade de vida, nossas oportunidades, nossas escolhas e investimentos. Obedecer às regras não é opção, mas obrigação. É proibido, embora comum, esquecer que o trabalho político é de representação. E nunca é demais lembrar que ninguém está acima das leis.
As paixões manifestadas nas ruas pró e contra o impeachment da presidente, a investigação de Lula, a atuação da justiça e da imprensa é termômetro de uma democracia sólida, mas ainda em plena construção.
É preciso dar um passo além desta paixão, justa e legítima para qualquer um dos lados.
Para a construção de um país realmente democrático, livre para todos, é preciso respeitar a paixão alheia, usando a razão para condenar desvios de conduta, tanto de um lado como de outro.
No Brasil de hoje, estamos torcendo em demasia pelo executivo e escalando mal nossos representantes no legislativo.  
Que nossa paixão não nos deixe cegar. Felizmente, temos hoje um terceiro poder que, se exercido com serenidade, longe do calor do jogo, é capaz de apontar os rumos corretos para este momento tão inflamado.
O Judiciário, como nunca antes na história deste país, é nossa garantia de que, na política, podemos continuar com nossas paixões, pois as regras do jogo serão respeitadas. 



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Um só gênero: a garota dinamarquesa


O filme A garota dinamarquesa, dirigido por Tom Hooper, com Eddie Redmayne e Alicia Vikander, conta a história da primeira pessoa a se submeter à cirurgia de mudança de gênero, na década de 20 do século passado.
O belo filme permite diversas vertentes de leitura, a começar pelo assunto, o transgênero.  Vou me ater a duas outras vertentes: a arte e a espectadora ao lado.
Penso que a arte é a atividade humana mais elaborada, a única capaz de trilhar caminhos inusitados, expondo nossas mazelas e conflitos, transformando o sofrimento em beleza. Poderia estar falando da arte do cinema ao abordar o tema transgênero, mas estou falando da importância da arte para as personagens desse filme.
Foi por meio da arte que a mulher Lili Elbe nasceu, a partir do homem Einer Wegener. E foi por ser artista que Gerda, esposa de Einer, pôde compreender e aceitar a transformação de seu marido. Fosse uma mulher comum da sociedade do século passado, ela simplesmente deixaria o relacionamento, classificando o conflito de seu marido como perversão sexual.  Por ser artista, Gerda usou outros instrumentos de leitura, que a fizeram chegar até a alma de seu companheiro.
Para coroar o papel da arte neste drama, Eddie Redmayne e Alicia Vikander nos presenteiam com o domínio da arte de representar. Os premiados atores deixam de existir por algumas horas, e os personagens passam a nos fazer companhia. É a magia das interpretações grandiosas.
Bela fotografia, boa história, grandes interpretações fizeram esse belo filme transformar a espectadora sentada ao meu lado.
Quando o tema passa pelo sexo, é compreensível o constrangimento. E essa senhora não conseguia segurar alguns comentários. Quando Einer vestiu a camisola da esposa, ela resmungou alguma coisa desaprovando. Mas quando Gerda convence o marido a se vestir de mulher, a desaprovação foi maior e atingiu o cume com um comentário: ela criou um monstro.
Por alguns minutos, a espectadora do lado me incomodou com seus comentários, mas só voltei a me lembrar dela no final do filme. Foi aí que percebi que, à medida que o filme foi desnudando o conflito de Einer, ela mergulhou em profundo silêncio. Ao final do filme, estava aos prantos.
Senti que Einer, para aquela senhora, deixou de ser um monstro e passou a ser qualquer um de nós. A espectadora ao lado já não se importava com a outrora constrangedora questão sexual.

Por meio da arte do cinema, percebeu que, por trás do drama da garota dinamarquesa, estava um conflito humano, demasiado humano, nosso único gênero. 



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Tamanho não é documento



A campanha do governo para combate à epidemia de dengue, chikungunya e zika tem como alvo o mosquito transmissor da doença. Com estardalhaço, até o exército foi convocado porque o mosquito “não pode ser maior que o país”.
O problema é que, nesse caso, tamanho não é documento. Há mais de quinze anos, o Brasil vem combatendo o mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus da dengue. E continuamos a conviver com o fantasma da dengue nos rondando em todo  verão.
O mesmo mosquito transmite outros vírus, como o zika, associado a casos de microcefalia e à síndrome de Guillain-Barré.  A partir dessa descoberta inédita, criou-se comoção mundial, e a fúria contra o mosquito tornou-se exacerbada.
A própria presidente, literalmente, vestiu a camisa da campanha e saiu às ruas à caça do mosquito e de seus focos de criação.
Acontece que esse tipo de campanha pode até ser necessária, mas nunca será suficiente. Fosse assim, nestes mais de quinze anos teríamos tido avanços no controle dessa típica epidemia brasileira.
Se, por um lado, a quebra de braço contra o mosquito me parece luta perdida, por outro, medidas mais ousadas têm sido agora estimuladas: a busca por uma vacina, ou a interferência genética no próprio mosquito, restringindo sua reprodução. Pesquisas com esses objetios poderão ser capazes de vencer a guerra contra o mosquito, ou mesmo contra os vírus que ele carrega.
Esta epidemia de zika trouxe, como grande benefício, o investimento em pesquisas. Até então, estávamos condenados a campanhas publicitárias contra o mosquito da dengue, sem muito sucesso. Agora não — verbas são corretamente investidas em busca de soluções mais inteligentes e eficazes.
É verdade que ainda restam dúvidas quanto à associação do vírus zika com doenças neurológicas. Mas debruçar sobre a dúvida é a verdadeira vocação da ciência.
E não duvido que saia daqui do Brasil a melhor maneira de controlar essa epidemia. Isso porque o Brasil tem excelente time de cientistas e instituições dedicadas ao estudo de doenças tropicais. Mas só agora foram escalados os recursos necessários para o avanço nas pesquisas.


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