Jair Raso

Atuação

• Coordenador do Serviço de Neurocirurgia e Neurologia do Hospital Unimed BH • Neurocirurgião do Biocor Instituto, Belo Horizonte, MG Membro Titular da Academia Mineira de Medicina • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia • Membro do Congresso of Neurological Surgeons • Mestrado e Doutorado em Cirurgia pela UFMG

Especialidades

• Malformação • Artério Venosa • Aneurisma Cerebral • Cirurgia de Bypass • Revascularização Cerebral • Cirurgia de Carótida • Tumores Cerebrais • Descompressão Neurovascular • Doença de Moya-Moya Tumores da Base do Crânio Doppler Transcraniano

Contato

Alameda da Serra 400 / 404 - Nova Lima - MG (31)3264-9590 • (31) 3264-9387 jrasomd@yahoo.com.br

Pinguela



Fernando Henrique Cardoso, referindo-se aos caminhos, descaminhos e atalhos de nosso comando político, disse que o mandato de Michel Temer era uma pinguela, frágil passagem sobre as águas turbulentas e turvas da política brasileira. Não seria, segundo ele, o mais sólido caminho para a travessia, mas o melhor possível nessas circunstâncias, até chegarmos ao outro lado, onde a terra firme das eleições nos aguardam. Não é uma passagem segura, mas a melhor possível.
A imagem da pinguela veio forte em minha memória. Quando criança passava minhas férias escolares em Desterro do Melo, pequena cidade próxima a Barbacena. Quase sempre, após o Natal, passava uma temporada na fazenda de meus tios José Machado e Terezinha. Chegar à fazenda naquele período chuvoso era uma aventura. Não raro, o Jeep do tio José Machado, que nos levava, ficava atolado na lama. Só saía de lá puxado por carro de boi. Houve um ano em que, após uma forte tempestade, a correnteza levou a ponte sobre o rio Xopotó, dificultando ainda mais a chegada à fazenda. Lembro-me de ter cruzado o rio equilibrando-me sobre uma pinguela, construída pelo tio José Machado, a partir do tronco de uma árvore. Com a forte correnteza a menos de um metro abaixo nos ameaçando, equilíbrio e coragem eram necessários para se chegar ao outro lado, onde um mundo divertido e alegre nos esperava na companhia de meus primos.
A comparação de nosso momento político sob o comando de Michel Temer a uma pinguela me parece muito feliz. Afinal, pinguela é um artifício frágil e deve ser utilizado com cautela até que outros caminhos mais sólidos sejam construídos.
A queda de uma pinguela não seria surpresa, mas representaria um aborrecimento a mais em meio à tempestade, já por si mesma tão incômoda.
As revelações sobre o envolvimento de Temer no recebimento de propinas e outros atos ilícitos, ainda que sutis, não deveriam ser uma surpresa. Ele foi eleito com Dilma, no mesmo cenário de práticas políticas escusas que agora ficam cada vez mais desvelados.
Além disso, Aécio Neves, o segundo colocado naquelas eleições, que, no rigor dos números, poderia ser considerado um empate, também utilizou os mesmos métodos espúrios.
A tempestade que resultou na construção da pinguela não veio dos céus, por acaso. Foi provocada pela ação de corruptos e corruptores, um toma-lá-dá-cá que domina nosso fazer político há muitos anos, movimentando cifras milionárias.
Os desdobramentos das investigações da Lava-jato vão limpando aos poucos toda a sujeira provocada por essa última tempestade. O país, atordoado, assiste ao espetáculo com incerteza e insegurança.
O final que vislumbro para essa crise política brasileira é o mesmo que hoje, anos distante da minha infância, compõe o retrato da fazenda de meu tio José Machado. Ele já morreu, minha tia Terezinha também. E de maneira violenta e inesperada, até mesmo dois de seus jovens filhos, meus primos. Mas hoje, para se chegar à fazenda há uma ponte de concreto, sólida, bem construída.
Pinguela é coisa do passado, guardada na mesma memória que lembra a coragem e equilíbrio necessários para atravessá-la. 





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Ode a Brecht


“Nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar”
Bertolt Brecht (1898-1956)

Nesses tempos de delações premiadas, principalmente aquelas da maior empreiteira do Brasil, a Odebrecht, gostaria mesmo é de fazer uma ode a Brecht, dramaturgo e escritor alemão.

Que tempo é esse em que falar de flores parece crime
pois importa em calar sobre tantos horrores.

Mas nestes tempos em que esquemas institucionais de corrupção vêm à tona, uma ode a Brecht poderia ocultar, no lirismo de versos, a música de fundo, que fere os ouvidos cívicos com acordes espúrios.

Quem não conhece a verdade não passa de um tolo.
Mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso.

Se a dinheirama ilegal que sustenta a maioria de nossos políticos fosse usada para cumprir seus discursos de campanha, já estaríamos vivendo em um país mais justo.
Somente quando somos instruídos pela realidade
é que podemos mudá-la.

Diria um verso dessa ode a Brecht que o voto que elege em um dia nossa voz no governo ou parlamento, cala-se na manhã seguinte. Em seu lugar, berros de ganância transformam esses poderes em balcão de negócios.
Miserável é o país que precisa de heróis.

No próximo pleito, não precisamos de salvadores da pátria. Uma ode a Brecht nos lembraria, talvez, de que não estamos interessados em surdos contando com nossa mudez.
Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem.
 
É tempo de ouvir e falar, em prosa ou verso. Sobretudo, é tempo de atitude diante da possibilidade de fazermos diferença. Uma ode a Brecht nos tempos de hoje terminaria com sua própria palavra a nos lembrar de que a verdade escancarada é oportunidade revelada.
Dissolver o povo e eleger outro.





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A doença da celebridade e do cidadão comum


Hoje, em algum pronto atendimento do país, uma senhora de 65 anos está sendo atendida por um neurocirurgião. Ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico por ruptura de um aneurisma cerebral. Trata-se de uma doença grave, e o neurocirurgião sabe de antemão que, apesar de todos os tratamentos instituídos da melhor forma possível, a possibilidade dessa paciente morrer ou ficar com sequelas é grande.
Apesar da gravidade, não é um evento excepcional. Todo o empenho do neurocirurgião se concentra no tratamento do aneurisma e na prevenção de complicações próprias desse tipo de hemorragia. Exige cuidados intensivos por tempo prolongado, que pode se estender por duas ou três semanas, se não mais. 
A mesma doença em uma celebridade não terá evolução diferente daquela do cidadão comum. Entretanto, todos os envolvidos no tratamento se veem expostos ao furor da mídia, ávida por notícias. Nesse turbulento ambiente, uma preocupação a mais passa a fazer parte do trabalho médico: a preservação da privacidade do paciente e de seus familiares.
Marisa Letícia, falecida esposa de Lula, foi vítima de AVC e da exposição indevida de seus exames nas redes sociais.
O tratamento do AVC não é trabalho de uma pessoa, mas de uma equipe multidisciplinar: emergencistas, intensivistas, neurorradiologistas, neurocirurgiões, clínicos, enfermeiras, fisioterapeutas, psicólogos. Exige do hospital uma sofisticada infraestrutura, além de um corpo clínico treinado no tratamento e reabilitação do paciente.  Além da capacitação técnica, todos os envolvidos no tratamento de qualquer paciente sabem e praticam o sigilo profissional.
Nos tempos atuais, as pessoas estão acometidas de uma doença peculiar, a que chamei em outra crônica de Jornalite: a imperiosa compulsão de divulgar pelos canais sociais tudo o que parece notícia. Isso inclui fotos de pacientes, de seus exames e de opiniões sobre todo e qualquer assunto, de qualquer área de conhecimento.
Em um passado não muito distante, as celebridades sofriam com a invasão e inconveniência dos paparazzi. Hoje, qualquer um de nós está exposto ao furor das pessoas munidas de celular e de uma incontrolável necessidade de registrar e divulgar fotos e filmes nas redes sociais.  
Pelo menos no ambiente médico essa praga deve ser combatida. Qualquer pessoa, celebridade ou não, tem o direito à privacidade, que faz bem à saúde.
No caso de celebridades, entretanto, é necessária a divulgação de boletins médicos, redigidos com o cuidado de bem informar. Ávidas de informações, as pessoas devem obtê-las de fonte segura, evitando-se assim os costumeiros boatos e deturpações das notícias.
Outro bom serviço que a imprensa pode prestar nessas ocasiões é o esclarecimento sobre a doença em foco. No caso de Dona Marisa, por exemplo, foi uma boa oportunidade para educar as pessoas sobre o AVC: seus tipos, suas causas, a importância do diagnóstico e tratamento precoces e, sobretudo, a prevenção.  
Uma boa prática seria essa: trocar a invasão de privacidade e o sensacionalismo pela difusão de conhecimento. 

Assim, a pauta dos jornais voltaria a ser educativa, em vez de se debruçar, como de costume, nas atrocidades e barbaridades do mundo afora. 



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O melhor de 2016: o ano acabou!


É quase consenso entre as pessoas dizer que 2016 foi um ano ruim. Em meio a uma de nossas maiores crises econômica e política, seria difícil encontrar notícias boas para uma retrospectiva esperançosa.
Talvez a melhor notícia do ano de 2016 seja que ele acabou.
Entretanto, insisto em procurar reconhecer no pobre ano de 2016 um dos méritos que ninguém vai lhe tirar: foi um ano rico de novidades políticas no Brasil e no mundo.
Claro que foi um ano de crises. Entre nós, a crise política conseguiu o difícil feito de ser maior que a crise econômica.
Mas sempre é bom lembrar o significado de crise. Esta palavra tem grafia quase igual em todas as línguas do mundo: em inglês e espanhol crisis; alemão, Krisis; francês, crise; grego, Krísi; em chinês... bem, em chinês não vale.
Na história da medicina, crise era o momento decisivo de uma doença, que poderia, a partir dela, evoluir para a cura ou para a morte. O conceito foi adaptado séculos depois para a economia, marcando a transição de um curso de prosperidade e outro de depressão.
Se, na medicina, a crise aponta para um momento único, geralmente um dia, em economia, esse período pode ser bem maior. De qualquer forma, toda a crise anuncia uma transição. Ou seja, de alguma forma sairemos dela. E sairemos vivos.
Olhando bem para todas as transformações de 2016, fica claro que estamos vivendo em um Brasil diferente. Quem poderia imaginar que um dos maiores empresários brasileiros seria preso algum, dia acusado de corromper políticos? Mais ainda, quem imaginaria que um dos mais poderosos políticos do país terminasse o ano sem seu mandato e atrás das grades?  Nunca antes, na história deste país, você viu tantos políticos preocupados não com seu destino traçado pelas urnas, mas pelos juízes.
Penso que tais fatos devam ser lembrados quando o desalento da crise bater forte.
Escrevi que andamos nos últimos tempos com o péssimo hábito de replicar notícias ruins pela mídia. Vejo nisso uma forma de sofrimento que não é nada boa para saúde.
Talvez o ano novo possa trazer, como novidade, uma mudança de postura, a começar conosco mesmo. Proponho que sigamos à risca o conselho de Marco Polo:
Para não sofrer há duas maneiras: a primeira, que é fácil para a maioria das pessoas, é aceitar o inferno e fazer parte dele até não o perceber como inferno; a segunda, é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínua: tentar conhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno e preservá-lo e abrir-lhe espaço”

Façamos, pois, um 2017 diferente!




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Jornalite



Nestes tempos difíceis, há uma epidemia que acomete a grande maioria das pessoas: a jornalite. O sofrimento tem origem na compulsão de ler e divulgar, nas redes sociais notícias ruins.
Seja no Whats up, Sacebook ou nos e-mails divulgam-se, repetidamente, notícias sobre quedas de avião, assaltos, descalabros na política e maus resultados econômicos. Parece que todos estão de plantão, prontos para divulgar o que acontece de pior no mundo. Isso causa ansiedade, mau humor e, em casos graves, desesperança. .
Creio que é preciso combater a jornalite, que encontra sua cura justamente nas mesmas fontes da doença: as notícias.
O tratamento é simples: segundos antes de enviar uma mensagem , fazer uma análise crítica de seu conteúdo. Se for notícia ruim, não publique. Delete. Tenha certeza de que os destinatários já sabem do ocorrido, pois os jornais e revistas profissionais, em suas versões eletrônicas, já se encarregaram de transformar qualquer notícia ruim em manchete.
O próximo passo para se evitarem os males da jornalite, é mais trabalhoso, mas vale a pena.
Deve-se procurar, no mesmo veículo de onde se retirou a notícia ruim, uma outra. Mas essa notícia obrigatoriamente deve ser boa. Não é tarefa fácil, pois notícia boa não vende jornal, nem dá Ibope. Uma vez encontrada qualquer notícia boa, espalhe essa notícia em sua rede de contatos.
Outras medidas que devem ser tomadas para que os males da jornalite sejam neutralizados
·         Não assista a telejornais ou a canais de notícias;
·         Fuja da primeira página de qualquer jornal;
·         Vá direto para o caderno de esportes ou cultura;
·         Depois, leia os editoriais;
·         Crie o hábito de deixar as manchetes sensacionalistas por último. Mesmo assim, leia com distanciamento.
·         Antes de publicar qualquer notícia em sua rede de amigos, confira se a fonte é confiável;
·         Finalmente, o mais importante: procure notícias boas. Se não encontrar, escreva para os editores, reclamando.
Assim, o vício de ficar replicando notícias ruins, a jornalite, será gradativamente substituído pela virtude de se divulgar o que anda dando certo no mundo. É disso que precisamos.  

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Aumento de casos de AVC em jovens


Os fatores de risco para o acidente vascular cerebral, o derrame, são praticamente os mesmos do infarto do miocárdio: hipertensão arterial, tabagismo, obesidade, sedentarismo, diabetes e taxas elevadas de colesterol.
Isso representa uma vantagem, uma vez que medidas preventivas são eficazes para combater duas doenças relacionadas à morte precoce ou diminuição da qualidade de vida.
Ao longo do tempo, notadamente na segunda metade do século passado, o conhecimento desses fatores de risco para as doenças cerebrovasculares foi o grande responsável pela diminuição progressiva dos casos de acidente vascular cerebral ao longo dos anos.
Entretanto, essa tendência está se revertendo agora e por uma razão preocupante: o aumento de casos de AVC em jovens.
Estudo publicado no Journal of the American Heart Association de novembro de 2016 mostra que persiste o declínio de AVC em pessoas acima de 55 anos. Já os casos entre pessoas de 35 a 39 anos mais do que dobraram. 
Os pesquisadores concordam que a tendência se deva a fatores ligados ao estilo de vida. A geração dos baby boomers, nascidos entre 1945 e 1954, aprendeu a lição e passou a controlar melhor os fatores de risco, dentre eles o cigarro. Essa geração também escapou do excesso de consumo de açúcar e da epidemia de obesidade e diabetes.
A geração seguinte não seguiu o mesmo caminho. É alta a incidência de obesidade e sedentarismo em pessoas com idade inferior a 40 anos.
Some-se a isso o uso de pílula anticoncepcional que também é fator de risco conhecido sendo considerado um dos responsáveis pelo aumento de AVC em mulheres jovens.
A mensagem deste estudo é bem clara: desde jovens, as pessoas precisam investir na prevenção das doenças cardiovasculares e mantê-la por toda a vida.
Não fumar, controlar o peso, fazer atividade física regular e ter uma dieta adequada são passos fundamentais na prevenção.
Isso envolve o remédio mais difícil de tomar, mas o mais eficaz: mudança de hábito.
Além disso, tomar medicamentos para controle da hipertensão arterial e os níveis de colesterol, quando necessários, complementam a estratégia para se reverter essa tendência de aumento dos casos de AVC.

Nunca é demais lembrar que, na economia de saúde, investir em prevenção é sempre um bom negócio. 



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O livre movimento do pêndulo


Uma sequência de eventos políticos aponta para uma mudança na ordem no mundo. A mais importante delas foi a eleição de Donald Trump para presidente do império americano.
Antes disso, o plebiscito que referendou a saída dos britânicos da União Europeia apontava para o isolamento de outro império.
O discurso arrogante de Trump assusta boa parte do mundo. Sua proposta econômica protecionista, seu desprezo pelo meio ambiente e principalmente seu racismo têm agora oportunidade de saltar da verborragia para ações concretas. Não será tão fácil.  O salto anunciado certamente será diferente do realizado.
Em nosso cenário, as mudanças não foram menores. Mergulhados em crise econômica, em meio a escândalos e desmandos, mais um processo de impeachment desferiu um golpe em nossa jovem democracia. O governo Dilma acabou junto com a derrocada eleitoral de seu partido.
A maioria dos Estados não têm verbas sequer para pagar suas despesas básicas com o funcionalismo, a saúde e segurança.
Nas últimas eleições municipais, vimos campanhas inusitadas. Não foi o embate entre a esquerda e a direita, entre o capital e o trabalho. Nenhuma palavra de ordem socialista, capitalista nem de nenhuma outra ideologia empolgava. O desinteresse foi geral. Quem se deu melhor conseguiu convencer a inexpressiva maioria que a antiga política chegou ao fim. Em duas capitais, São Paulo e Belo Horizonte, empresários foram eleitos prefeitos com discurso de não serem políticos, como se isso fosse possível.
De qualquer forma, em casa ou no exterior, o desenho está traçado.  As ideologias de esquerda cederam espaço à ideia do Estado-empresa. Conseguiu-se emplacar a ideia de que os governos devem ser entregues a gestores e não a políticos.
Analistas de todos os cantos profetizam anos difíceis, verdadeiro retrocesso político e social nesta busca frenética por bons resultados econômicos.   Chegou-se a falar até no fim do mundo, do mundo que conhecemos até agora.
Eu enxergo todo esse cenário de forma diversa. Quando penso nessa dança política, a imagem que tenho é a de um pêndulo, oscilando de um lado mais liberal, social e ambiental para outro mais conservador, desigual e poluidor. No trajeto entre uma extremidade e outra, as mudanças de cada lado sempre deixam um rastro de avanços, quando depurados os excessos. O pêndulo não fica estagnado de um lado e, ao mover-se para o outro, deixa no caminho tudo aquilo que é de interesse comum.
Nesta mudança de agora, por exemplo, penso que os avanços sociais já conseguidos dificilmente serão surrupiados. O movimento do pêndulo nos ensina que não é possível acabar com a miséria por decreto, nem resolver a desigualdade quebrando o Estado e as corporações. Por outro lado, também nos ensina que as pautas sociais e ambientais nunca poderão ser ignoradas.    
De qual lado do pêndulo estou? Na última edição da Revista Filosofia, Ciência & Vida (vol. 118), o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo, USP, afirma que a esquerda não é só uma posição política, mas um modo de vida.
Uma vida à esquerda está fundada no respeito à diferença, no combate à exclusão social, na defesa do meio-ambiente e, sobretudo, na crença dos poderes da liberdade.  
Mesmo que o cenário político atual mostre o pêndulo  se afastando deste lado, nosso modo de vida não vai mudar.

Afinal, para além das paixões políticas e ideológicas, o que nos interessa de fato é o livre movimento do pêndulo. 




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